Wednesday, August 27, 2003
A MENSAGEM EM FANTASIA
Na primeira festa de protótipos do ano, escola de São Gonçalo mostra suas armas na luta pelo título
A Unidos do Porto da Pedra apresentou ontem sua carta de intenção para o próximo carnaval. Estreando na vermelho-e-branca de São Gonçalo, o carnavalesco Alexandre Louzada procurou dar o seu recado sem maiores rodeios, através de figurinos luxuosos. Vai direto ao assunto, sem se utilizar de metáforas ou referências mais complexas, dando um toque de extrema linearidade ao enredo. Ao final da apresentação, ficou nítida a assinatura do carnavalesco em cada figurino, tanto pela forma e distribuição de cores, como pela utilização de materiais.
Vale ressaltar que em muitas das fantasias são utilizadas penas falsas de faisão, verticalizando ainda mais as roupas, que têm como fio condutor a presença de elementos do enredo na cabeça, nos ombros e no resplendor. Esta opção acaba por proporcionar um maior volume às fantasias, que receberam também um tratamento todo especial de aljofres e pedrarias.
O primeiro setor contempla o desenvolvimento da escrita como tecnologia responsável pelo desenvolvimento de diversas civilizações. As cortinas se abrem com um interessante figurino de homens das cavernas, trabalhado em amarelo, marrom e vermelho, com uma lança como alegoria de mão, um capuz representando a caverna, além de inscrições rupestres na capa. A segunda ala representa os persas, com muito amarelo e dourado. Os egípcios, tema da terceira fantasia, aparecem em laranja e branco com uma belíssima cabeça trabalhada com aljofres. As Baianas Chinesas trazem as grandes damas da escola com fantasias em cores fortes, que vão do vermelho ao dourado, trazendo lanternas na cabeça e nos ombros. Dentro do clima de cidade proibida, bandeiras caem das costas das componentes, dando um toque todo especial à fantasia.
Na segunda fase do enredo, o tigre visita o Império Romano em figurinos com praticamente o mesmo desenho e trazendo os mesmos elementos: elmos, escudos e espadas luxuosamente confeccionadas. Eles representam soldados, generais e senadores romanos, em cores que variam do branco ao lilás, com detalhes em vermelho e dourado.
Após a visita à civilização clássica, o enredo viaja para a Idade Média, onde o leva e traz de mensagens ganham contornos épicos, especialmente na ala dos falcões - em cinza, vermelho e prata – e nas baianinhas, representando os pombos-correio, em tons de branco e belo trabalho de fuê laranja. A bateria veste-se de Cavaleiros Medievais, com o predomínio do prata e vermelho. Os Servos Medievais são representados pelos passistas, cuja fantasia segue a mesma linha da bateria, seguidos pelas alas Cavaleiros Templários e Cavaleiros do Reino de França, vestidos em tons laranja, vermelho e rosa, trazendo elementos presentes em todas as fantasias do setor: pontas de lanças na cabeça e nos ombros.
E segue o enredo com um setor dedicado aos povos do Novo Mundo, através dos luxuosos Incas, trabalhados com muito dourado e amarelo, e os coloridos Nativos de Vera Cruz e Terra Brasilis, com grande quantidade de penas aparadas em cascata, em berrantes tons de verde, amarelo, azul e vermelho. A ala de crianças traz o futuro da escola vestido graciosamente como Moleques de Recado, sucedidos pelas alas Abertura dos Portos, Dragões da Independência e Selo Olho de Boi, todas em tons de branco, vermelho, preto e detalhes em verde e amarelo.
A modernização dos serviços postais é tema das fantasias Cartas de Amor –uma das mais bonitas da escola, um cupido estilizado em tons de branco, rosa, corações de acetato vermelho, além de um arco e flecha dourado como alegoria de mão. Depois, surgem as fantasias alusivas aos Cartões Postais, O Carteiro – com um cachorro preso à perna do componente - Feliz Aniversário e Boas Festas, com muito colorido. No último setor, dedicado à Era Digital, os componentes vestem roupas futuristas, em tons metalizados de prata, rosa e laranja nas fantasias Torpedo Celular, Internet e Antenado com o Universo.
Segunda escola a se apresentar na segunda-feira de carnaval e primeira a mostrar os protótipos para o carnaval de 2004, o tigre de São Gonçalo vai lutar para se superar no quesito fantasias, um dos pontos fracos da escola em 2003. E da pedra à Internet, tentar carnavalizar a importância dos serviços postais para a humanidade, levando alegria aos destinatários da folia e trazendo a energia a todos os que vibram ao som do batuque que vem lá de São Gonçalo.
posted by Gustavo at 1:55 PM
Wednesday, May 07, 2003
Vento Inspirador
(Da Série Como Nasce Um Enredo)
O ano é 1984. Edmundo Braga e Paulino Espírito Santo trabalhavam num enredo para o Salgueiro sobre Getúlio Vargas. Lógico, não podia faltar a referência às terras gaúchas. E o tema ganhou um subtítulo: “Vento Sul... Anos Trinta”. Uma abordagem difícil para uma escola diferente.
Noite de lançamento do enredo na quadra do Andaraí. Convidados chegando, mesas e palco decorados, tudo pronto para o início do carnaval do Salgueiro de 1985. Até que uma grande ventania invadiu o espaço. Os espelhos e estandartes confeccionados para a festa balançavam ao sabor do vento, quem sabe vindo como “um ciclone feiticeiro soprando forte do Sul.”
“Ê parrei, Iansã!”, gritou um dos carnavalescos, saudando a senhoras dos ventos. E todos espantados com aquele fenômeno que ameaçava estragar a festa salgueirense. Dona Regina Hammelt, um dos tradicionais destaques da vermelho-e-branco, bradou: “Nossa que arrepio. Esconjuro pé de pato, Mangalô três vezes!”. Ao que Paulino Espírito Santo emendou: “Ei, isso dá samba. Anota aí, Edmundo. Puxa, isso é do tempo da minha avó”.
No ano seguinte, já contratados pela Mocidade Independente de Padre Miguel, elaboraram o tema “Bruxarias e Histórias do Arco da Velha”. Ali nascia um enredo que nascido de um capricho do vento e do espanto de Dona Regina.
posted by Gustavo at 11:23 AM
Wednesday, April 30, 2003
COLUNA BOI COM ABÓBORA II
Injustificativas
Divulgadas as justificativas, é hora das agremiações reunirem seus segmentos e consertarem os erros apontados. A primeira reunião deve ser da Liga com os próprios jurados.
Tô Bege I
A jurada Carla Roberto deverá ser indicada ao prêmio Nobel de Física, devido à justificativa de que o Salgueiro estava “sem cor, com muito bege”. Segundo informações, ela será contratada por uma respeitável Universidade para reformular o disco de Newton. Fontes seguras juram ter visto o corpo do cientista revirando na sepultura.
Tô Bege II
Revoltado com a jurada Carla Roberto, Arlindo Rodrigues mandou uma mensagem psicografada para a coluna: “Imagina a nota que essa mulher teria dado à Imperatriz em 1983 quando eu elaborei “A Visita do Rei da Costa do Marfim a Xica da Silva em Diamantina”, quando coloquei a escola toda em branco e dourado. É o fim da picada! Onde já se viu isso?? Essa mulher tá louca....” O resto da mensagem não pode ser publicada. Pelo menos não nesse horário.
Vale a Pena Ver de Novo?
Depois que a Globo refez novelas de sucesso como “Irmãos Coragem”, “Anjo Mau”e “A Viagem”, as escolas resolveram aderir à moda das reprises. A Portela reviverá “Pai Herói de Madureira” e a Mangueira ficará com “Brega e Chique em Verde e Rosa”.
Vale a Pena Ver de Novo II?
Acaba de chegar a notícia de que a Porto da Pedra, com o patrocínio dos Correios, reviverá o sucesso “Ti-Ti-Ti”. Mas a disputa está grande mesmo é para ver quem vai ficar com “Cambalacho”.
Portela Invadida
Extra! Extra! A quadra da Portela foi invadida por homens armados, revoltados com a atual situação da escola, sem títulos há mais de trinta anos. A direção da escola declarou que por causa da gracinha da torcida, vai chegar agora, só de birra, aos cinqüenta anos de jejum.
Portela Invadida II
Os revoltosos promoveram um churrasco na quadra da escola como forma de protesto. E prometeram mais manifestações nas próximas horas: haverá um casamento, uma comemoração de bodas de ouro e um baile de debutantes. A idéia é transformar a escola em Portela Eventos e Buffet Ltda.
Terremoto em Botafogo
A ida de Milton Cunha para São Clemente está causando o maior frisson na população do famoso bairro de passagem. Eles agora estão passados.
Terremoto em Botafogo II
Se os ensaios próximos na estação do Metrô de Botafogo forem tão concorridos como os da Unidos da Tijuca na Rua Venezuela na era Milton, o Botafogo Praia Shopping poderá dar início à expansão, sem o menor medo de ser feliz.
Minimalismo
Depois de fazer uma saia de porta-bandeira toda com canudinhos de plástico e um carro todo com latas de tinta, o carnavalesco Paulo Barros teve uma idéia genial. Vai fazer uma alegoria para a Unidos da Tijuca toda com fichas de telefone. O presidente Fernando Horta já pediu encarecidamente que ele deixe de assistir às reprises do programa da falecida Marta Balina, aquela que ensinava como se faz um porta-jóias com palitos de dente, na Bandeirantes.
Xou da Caprixosos
De saco cheio das piadas sobre o enredo da Xuxa, Cahê desabafou: “Não, a bateria não vir vestida de praga. Não, não vamos ter ala do Dengue. E não, as baianas não vão desfilar de Paquitas. Mas o Moderninho não pode deixar de estar na avenida”. É que o carnavalesco ganhou seu primeiro conjunto de lápis de cor no programa da Loura e quem sorteou sua carta foi o simpático boneco (Iéiéééééé).
Mordomo da Hebe
Anunciado o enredo, a Tradição agora tenta resolver uma pendenga com a homenageada Hebe Camargo. Não se sabe se e onde o Antônio (lembra dele?) vai desfilar. Em tempo: o espontâneo sorriso do mordomo da loura-forte do SBT é a arma secreta da escola de Campinho para seduzir algumas jurássicas, digo, juradas (grranncinha!!).
Para Refletir
A produção da Rede Globo deu bronca em alguns comentaristas que insistiam em falar o nome das pessoas mais emblemáticas de cada escola. “Só podem falar o nome dos artistas” reclamaram. E não são artistas os que ralam o ano todo para mostrar o seu trabalho na avenida? Se liga, Rede Globo.
posted by Gustavo at 12:34 PM
Tuesday, April 29, 2003
TUPINICÓPOLIS
Contava nove anos de idade. Numa manhã chuvosa (como todas as manhãs próximas ao carnaval no Ceará) me deparei com uma súbita imagem na TV: um monte de índios subindo e descendo uma rampa, todos vestidos em penas e calçando patins. Achei aquela cena genial. Mal sabia que estava diante de uma obra-prima produzida por uma escola de samba .
Mais tarde, uma reprise daquele desfile completou a minha primeira impressão sobre aquela imagem. Outras surpresas como um shopping center com chafariz e toda a sorte de produtos de consumo me despertaram uma grande curiosidade. Parecia que eu, vivendo com toda intensidade a minha infância, estava assistindo a um daqueles desenhos animados como Os Jetsons ou Flintstones em que os hábitos da sociedade atual são projetados para outra dimensão temporal/espacial.
Se não, vejamos: da bela arte plumária indígena brasileira tão bem trabalhada nas fantasias se elevavam edifícios, placas de trânsito, eletrodomésticos, meios de transporte, enfim, símbolos tão comuns no nosso cotidiano urbano. As alegorias com legendas das atrações daquele paraíso consumista tropical tornavam-se verdadeiros monumentos perdidos entre bananeiras e palmeiras.
A trilha sonora daquele grandioso ritual indígena era regido ao som dos repeniques e por um samba-enredo que mesmo não sendo uma obra-prima do gênero, encaixava-se perfeitamente com o canto tribal-estrelar daquela gente que vestia a fantasia antropofágica, caricata e debochada de como nós, brasileiros, nos vemos nus diante do espelho da história, só que desta vez sem a indumentária adquirida em 500 anos de colonização.
Anos depois fui saber que o responsável por aquilo tudo era um pernambucano de alma verde-amarela. Quem sabe era um índio que descia de uma estrela verde e branca, impávido que nem Mohamed Ali, apaixonadamente como Peri, tranqüilo e infalível como Bruce Lee. Mas que nada! Era o mais antropofágico de todos os carnavalescos. Era o grande Fernando Pinto, cidadão número 1 da Tupinicópolis.
posted by Gustavo at 1:52 PM
A CURVA
Que me perdoe o Caetano, mas perto do cruzamento da Marquês de Sapucaí com Presidente Vargas, a Ipiranga com a São João é fichinha. Imaginem o que deve ter acontecido com o coração do baiano quando entrou ovacionado na avenida com o enredo da Mangueira em 1994, em homenagem aos Doces Bárbaros. Bairrismos a parte, pensem só no franzino poeta cantarolando “alguma coisa acontece no meu coração. E só quando cruzo a Presidente Vargas com Marquês de Sapucaí”.
Tudo bem que a rima e a métrica foram pro espaço, mas o importante é registrar que aquela curva tem alguma magia inexplicável que conjuga, nos dias de folia, uma descarga potentíssima de energia. Presidente Vargas com Marquês de Sapucaí. O endereço da aflição, da ansiedade, da alegria e da inexplicável sensação de dar à luz um desfile. No caminho das escolas, a curva funciona como uma cortina que se abre aos milhares de protagonista do grande teatro do carnaval.
De cara, o incauto desfilante se depara com a feérica iluminação e como pano fundo o monumento da Praça da Apoteose. Essa visão por si só já é de fazer levar o coração à boca. Imaginem só com todo o setor um cantando junto, vibrando, aplaudindo... É uma sensação única, daquelas que todo ser humano deveria experimentar pelo menos uma vez na vida.
E lá do alto, testemunhas e catalisadores do transe do desfilante, os espectadores vêem ser costurado um grande tapete com as cores da escola, entrecortados por imensos monumentos nascidos da mais pura arte do povo. Não é à toa que esta fórmula tão peculiar de celebrar a beleza e a alegria está viva há mais de setenta anos. E ganhou um charme maior ainda quando a curva passou a ser elemento importante para o sucesso de um desfile.
Por certo, na curva dormita o Deus do carnaval. Um ser transcendental, inexplicável e imprevisível que vez por outra desperta do seu sono, estica sua varinha mágica e diz: “É esta escola que vai acontecer aqui”. Incluo nessa lista desfiles memoráveis, como a Kizomba da Vila, a Paulicéia Desvairada da Estácio, o Ita do Salgueiro. Mas como a mão que afaga é a mesma que apedreja, este mesmo Deus pode destinar sua ira em outras ocasiões, como foi o caso da Dança da Lua da Estácio, do Sonhar Não Custa Nada da Mocidade, da Vila Isabel em 1986, com seu luxuoso enredo sobre as marchinhas, ou mesmo o Salgueiro com seu “Skindô, Skindô”, desfiles que não tiveram uma recepção tão grande como o esperado.
Tenho um amigo que defende a tese de que o desfile deveria ser pista oval, como na Fórmula Indy. “Assim teríamos não só uma, mas várias curvas”, conclui. Eu vou além. Ao conceber o projeto do sambódromo, Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer não poderiam prever a pirâmide invertida que estavam criando. A grande apoteose do sambista não é na praça, é na curva. E mesmo sem uma ligação física contínua entre os setores na avenida, uma escola que entra bem na Sapucaí joga energia para a arquibancada, que devolve a vibração e a impulsiona até o final do percurso. Em outras palavras, toda escola que quiser ganhar o carnaval deve estar em paz com aquela encruzilhada. E evitar derrapar na curva.
posted by Gustavo at 1:18 PM
Wednesday, March 26, 2003
Histórias de Concentração
Bailarina no Triciclo
Eduardo e eu estávamos no portão inicial da concentração no lado do Balança-Mas-Não-Cai, recepcionando os fundadores do Salgueiro que deveriam cruzar toda a armação até o carro abre-alas, onde desfilariam. Na outra ponta, outro diretor, o Paulinho, recebia as pessoas e já cuidava das posições dos homenageados na alegoria. Tratava-se de uma operação de guerra, devido a distância a ser percorrida por fundadores e salgueirenses ilustres, alguns em idade bem avançada.
Foi o caso de Mercedes Baptista. Primeira bailarina negra do Teatro Municipal, ela chegou à concentração amparada por uma acompanhante. Praticamente não andava. Na hora, lembrei daquela mulata linda, com porte fidalgo que saltava das fotos das nossas pesquisas para o acervo iconográfico da Diretoria Cultural. A imagem estava congelada, mas ela bailava com seus súditos das páginas de Manchetes, Cruzeiros, Mundos Ilustrados etc. Pois eis que ela estava ali com a gente. Praticamente imobilizada. E o que fazer?
- Vamos andando devagarzinho. Quando a gente vir, já chegou no carro, disse a acompanhante com toda a boa vontade do mundo.
Mais de dez minutos e elas não tinham andado dez metros. Era preciso arranjar um outro jeito de levá-la. Até que um gentil fiscal da Riotur, sugeriu:
- Acho que eu sei como levar a velhinha até o abre-alas. Tenho um amigo que pode fazer o serviço.
- Pô, chama ele pra gente, emendou o Eduardo.
- Mas tem um custo.
- Ah, tá bom, quanto custa levar a Mercedes Baptista até o abre-alas?? Cinco reais tá bom?
- Nada, dez reais paga o serviço.
- Fechado.
Cinco minutos depois, chega um homem franzino com um triciclo.
- Tô aqui, chefe. Cadê a mulher??
- É aquela ali. Mas como ela vai subir aí em cima?
- Deixa comigo.
Ágil, o rapaz encaixou a bailarina direitinho, mas numa posição um tanto quanto inusitada. De posse de um rádio, Eduardo comunicou ao Paulinho:
- Olha, já tá indo para o carro a Mercedes Baptista. Mas pelo amor de Deus, não ri, não.
- Por quê??
- Ela tá indo num triciclo...
O Diretor do abre-alas esticou o pescoço e viu ao longe a cena: Mercedes na frente da geringonça, como uma carga, de pernas erguidas e quase deitada no pequeno espaço destinado a carregar mercadorias.
O Paulinho até que se segurou, mas os outros que já estavam no carro não se contiveram.
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Emoção de sambista
Tia Neném é daquelas salgueirenses fervorosas. Sempre na quadra durante o ano todo, não perde a oportunidade de estar entre os seus amigos, também fundadores da agremiação. E para ela tudo está bom, o importante é estar lá. Imaginei como ela reagiria no dia do desfile, vendo a instituição que ela ajudara a erguer sendo cantada e mostrada ao mundo todo. Às vezes ficava meio receoso dela nem mesmo ter a menor dimensão disso, não verter uma lágrima sequer e pior, vir com aquela frase já tão batida e cada vez mais pronunciada por tantas bocas cansadas de receber coronhadas das escolas que ajudaram a criar: Desfilar já não tem a mesma graça. Bom era no meu tempo.
Pois bem, a tia Neném apareceu linda. Caprichou no vestido e na peruca. Dei o braço a ela e seguimos pela concentração, toda preenchida pela melhor história salgueirense. E ela sem pronunciar uma palavra. Só contemplando os feitos salgueirenses, como que lambendo a própria cria.
- Aqui, tia Neném, é o carro da História do Carnaval Carioca. Aquele é o de Xica da Silva. E esse outro é o do Zumbi.
E ela nada. Só olhava. Quando chegamos ao abra-alas, ela parou, na lateral do carro. Tinha algumas fotos de salgueirenses já falecidos. Agora quem falou foi ela.
- Ah, meu Deus... Aquele ali era o meu marido, apontando para a foto do Buzunga. E desatou-se num choro comovente.
Agora quem estava mudo era eu. Ali eu tive a noção da importância daquele enredo que os julgadores canetaram sem dó nem piedade. Desculpe, não canetaram o enredo. Canetaram a tia Neném, seu choro, sua emoção e sua história. Agora sou eu que digo: Desfilar não tem mais graça. Bom era no meu tempo em que tradição e história valiam alguma coisa.
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De histórias e situações como essa é que vive a maior festa popular do planeta.
posted by Gustavo at 8:41 AM
Tuesday, March 25, 2003
COLUNA BOI COM ABÓBORA
Deu Mole
A coluna teve acesso às justificativas dos jurados de bateria. As baixas notas da Mocidade aconteceram por causa da desafinação de Elza Soares e Ana Maria Braga. Faz sentido.
Bolaram as trocas
Comenta-se a boca miúda que a Liga trocou a ordem das escolas no mapa dos julgadores. Viram o Salgueiro, mas julgaram a Grande Rio e vice-versa.
Ausência
A ausência mais sentida no desfile da Tradição não foi a do fenômeno Ronaldo. Foi das fantasias.
Surpresa
A maior surpresa da avenida não foram os desfiles da Mocidade e da Santa Cruz. Foi o enredo da Beija-Flor, que ficou super compreensível. A alegoria alusiva a Tiradentes, Zumbi e Lampião era de uma clareza... O abre-alas então nem se fala.
Defeitos Especiais
O maior efeito especial da Beija-Flor foi a perda dos dedos do Lula. Era para perder outros, mas a escola teve medo do Presidente aparecer com um dedo só na avenida, justamente aquele do meio.
Perguntar Não Ofende
E a mão que faz a guerra faz a paz entrou em que setor do desfile da Beija-Flor?
Bola Murcha
Muitos criticaram o último carro da Tradição, aquele do Trio Elétrico. Mas foi o único carro da escola que não desmanchou na chuva.
Ameaça
Descobriu-se que a cadeira elétrica da Grande Rio teve a intenção de intimidar os jurados. Era uma prévia do que aconteceria aos que não dessem a nota máxima.
2004 vem aí
Renato Lage e Márcia Lávia já começaram a bolar o carnaval do Salgueiro para 2004. Vai ser um enredo-denúncia, sobre a importância da preservação da formiga no deserto do Saara. No final, fazem uma homenagem ao açaí, fruta que vai energizar o mundo no novo milênio. Nota dez garantida.
Por Fora
Nada de plumas, penas e materiais caros. A ordem agora é vestir as escolas com camisas de clubes de futebol estilizadas. A Santa Cruz estava fora de moda.
Comichão na Frente
A Beija-Flor nem escolheu o enredo, mas já tem pronta uma idéia inédita para a sua comissão de frente. Serão bailarinas dançando na ponta do pé com fantasias coloridas. E a coreografia.... Ah, quem liga para a coreografia?
Guerra Santa
Laíla elogiou tanto o desfile da Mangueira ontem no Sem Censura, que já decidiu: Vai se converter ao judaísmo.
Fusão
O mercado de capitais aguarda ansioso a fusão entre a Beija-Flor e a São Clemente. A super força do samba se chamará Beijamente ou São Fulô.
Transmissão
Ninguém esperava, mas os presidentes das escolas do Grupo A soltaram o verbo ao vivo durante a apuração. A Associação das Escolas de Samba ficou constrangida com tamanha falta de ética dos dirigentes.
Insulanos
A União da Ilha anunciou mudança de nome. Se chamará União da IRA do Governador.
posted by Gustavo at 12:21 PM
Pra que um Blog destinado a escolas de samba?
Primeiro, porque nada mais pessoal que um Blog, uma espécie de diário na Internet. E por ser pessoal, tem que ter a cara do seu “escritor”. E como seu “escritor” adora escolas de samba, então resolveu dedicar seu Blog a essas camaradas instituições, que nos enchem de cabelos brancos, ira, paixão, angústia, tensão e tantos outros sentimentos nobres.
Devo a uma grande amiga esta iniciativa de ser um blogueiro: Amarílis. Esta paulistinha linda, de Jaboticabal me apresentou a esta admirável ferramenta nova, e me encheu de orgulho ao ver seus textos disponibilizados a uma pequena comunidade de amigos. Algo em torno de 6 bilhões de pessoas.
Mas voltando à necessidade de um Blog para escolas de samba, é mais uma forma de divulgação dessa festa maravilhosa. Já existem na praça sites, listas de discussão, fóruns e até um prêmio nascido na rede, do qual tive o prazer ser coordenador por dois anos: o S@mba Net, onde pude fazer grandes amigos. Além disso, mando um abraço aos amigos de militância de site do Salgueiro, Eduardo Pinto, André Albuquerque e Paulinho Barros.
É isso aí. Espero contar com a audiência dos amigos de sempre e dos novos. Juro que vou tentar atualizá-lo sempre que puder. Abraços.
Gustavo
posted by Gustavo at 12:11 PM
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